quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Receita Milenar

Fonte: O EVANGELHO ESSÊNIO DA PAZ
Edmond Bordeaux Szekely


"“Como deveríamos cozer sem fogo o pão de cada dia, Mestre?”, perguntaram alguns com desconcerto.

Deixai que os anjos de Deus preparem vosso pão. Umedecei vosso trigo para que o anjo da água o penetre. Colocai-o então ao ar, para que o anjo do ar o abrace também. E deixai-o da manhã à tarde abaixo do sol, para que o anjo da luz do sol desça sobre ele. E a bênção dos três anjos fará com que o gérmen da vida brote em vosso trigo. Triturai então em migalhas e fazei finas fatias, como fizeram vossos antepassados quando partiram do Egito, terra da escravidão. Ponde-as de novo sob o sol e, quando este estiver no seu ponto mais alto no céu, virai-lhes ao contrário para que o anjo da luz do sol as abrace também pelo outro lado, e deixai-os assim até que o sol se ponha. Pois os anjos da água, do ar e da luz do sol alimentaram e maturaram o trigo no campo, e eles devem igualmente preparar também vosso pão. E o mesmo sol que, com o fogo da vida, fez com que o trigo crescesse e maturasse, deve cozer vosso pão com o mesmo fogo. Pois o fogo do sol dá vida ao trigo, ao pão e ao corpo. Porém o fogo da morte mata o trigo, o pão e o corpo. E os anjos vivos do Deus Vivo somente servem a homens vivos, Pois deus é o Deus do vivo e não Deus do morto."

domingo, 13 de dezembro de 2009

Apocalipse Agora

Por Frei Betto

O fim do mundo sempre me pareceu algo muito longínquo. Até um contrassenso. Deus haveria de destruir sua Criação? Hoje me convenço de que Deus nem precisa mais pensar em novo dilúvio. O próprio ser humano começou a provocá-lo, através da degradação da natureza.

Os bens da Terra tornaram-se posse privada de empresas e oligopólios. A causa de 4 bilhões de seres humanos viverem abaixo da linha da pobreza, e 1,2 bilhão padecer fome, é uma só: toda essa gente foi impedida de acesso à terra, à água, à semente, às novas técnicas de cultivo e aos sistemas de comercialização de produtos.

A decisão dos EUA e da China de ignorarem a Conferência de Copenhague sobre Mudanças Climáticas torna mais agônico o grito da Terra. Os dois países são os principais emissores de CO2 na atmosfera. São os grandes culpados pelo aquecimento global. Ao decidirem boicotar Copenhague e adiar o compromisso de reduzirem suas emissões, eles abreviam a agonia do planeta.

Felizmente, a 25 de novembro o presidente Obama, sob forte pressão, voltou atrás e desdisse o que falara em Pequim. Os EUA, responsáveis por 23% das emissões mundiais de CO2, prometerá em Copenhague reduzir, até 2020, 17% das emissões de gases de efeito estufa; 30% até 2025; e 42% até 2030.

Por que o recuo? Além da pressão dos ecologistas, Obama deu-se conta de que ficaria mal na foto ignorar Copenhague e comparecer em Oslo, dia 10 de dezembro – quando se comemora o 61º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos – para receber o prêmio Nobel da Paz. Portanto, na véspera estará na capital da Dinamarca.

Curioso, todos os prêmios Nobel são entregues em Estocolmo, exceto o da Paz. Por uma simples e cínica razão: a fortuna da Fundação Nobel, sediada na Suécia, resulta da herança do inventor da dinamite, Alfred Nobel (1833-1896), utilizada como explosivo em guerras. Como não teve filhos, Nobel destinou os lucros obtidos por sua patente a quem se destacar em determinadas áreas do saber.

Há uma lógica atrás da posição ecocida dos EUA e da China. São dois países capitalistas. O primeiro, abraça o capitalismo de mercado; o segundo, o de Estado. Ambos coincidem no objetivo maior: a lucratividade, não a sustentabilidade.

O capitalismo, como sistema, não tem solução para a crise ecológica. Sabe que medidas de efeito haverão de redundar inevitavelmente na redução dos lucros, do crescimento do PIB, da acumulação de riquezas.

Se vivesse hoje, Marx haveria de admitir que a crise do capitalismo já não resulta das contradições das forças produtivas. Resulta do projeto tecnocientífico que beneficia quase que exclusivamente apenas 20% da população mundial. Esse projeto respalda-se numa visão de qualidade de vida que coincide com a opulência e o luxo. Sua lógica se resume a “consumo, logo existo”. Como dizia Gandhi, "a Terra satisfaz as necessidades de todos, menos a voracidade dos consumistas".

Exemplo disso é a recente crise financeira. Diante da ameaça de quebra dos bancos, como reagiram os governos das nações ricas? Abasteceram de recursos as famílias inadimplentes, possibilitando-as de conservar suas casas? Nada disso. Canalizaram fortunas – um total de US$ 18 trilhões - para os bancos responsáveis pela crise. Eduardo Galeano chegou a pensar em lançar a campanha “Adote um banqueiro”, tal o desespero no setor.

O planeta em que vivemos já atingiu os seus limites físicos. Por enquanto não há como buscar recursos fora dele. O jeito é preservar o que ainda não foi totalmente destruído pela ganância humana, como as fontes de água potável, e tentar recuperar o que for possível através da despoluição de rios e mares e do reflorestamento de áreas desmatadas.

Ecologia vem do grego "oikos", significa casa, e "logos", conhecimento. Portanto, é a ciência que estuda as condições da natureza e as relações que entre tudo que existe - pois tudo que existe co-existe, pré-existe e subsiste. A ecologia trata, pois, das conexões entre os organismos vivos, como plantas e animais (incluindo homens e mulheres), e o seu meio ambiente.

Essa visão de interdependência entre todos os seres da natureza foi perdida pelo capitalismo. Nisso ajudou uma interpretação equivocada da Bíblia - a ideia de que Deus criou tudo e, por fim, entregou aos seres humanos para que "dominassem" a Terra. Esse domínio virou sinônimo de espoliação, estupro, exploração. Os rios foram poluídos; os mares, contaminados; o ar que respiramos, envenenado.

Agora, corremos contra o relógio do tempo. O Apocalipse desponta no horizonte e só há uma maneira de evitá-lo: passar do paradigma de lucratividade para o da sustentabilidade.

sábado, 21 de novembro de 2009



Força da paz
Cresça sempre, sempre mais
Que reine a paz e acabem as fronteiras
Nós somos um

Amor, amor, amor, amor, amor
Essa canção é do amor

domingo, 1 de novembro de 2009

Carta Aberta a Comunidade

Prezados amigos terráqueos,



Sinto que estamos passando por um momento de profundas transformações, principalmente no que diz respeito ao meio-ambiente e à forma como nos relacionamos e usufruímos de seus recursos. Felizmente, percebo que iniciativas diversas, as quais buscam alternativas para a preservação do planeta, proliferam ao nosso redor, o que me inspirou a agir de alguma maneira. Por isso, hoje, em pleno domingo, resolvi escrever esta carta aberta à comunidade.



A maneira como nos organizamos sobre a Terra, em termos sociais e econômicos, segundo uma lógica de consumo e um paradigma urbano-industrial, vem se mostrando insustentável, se considerarmos que já consumimos, anualmente, 25% a mais dos recursos que nosso meio poderia oferecer. E o que é mais grave: se o mundo inteiro passar a seguir os padrões de consumo norte-americanos, europeus e japoneses, que são cada vez mais disseminados com a globalização, serão necessárias mais duas ou três Terras para suportar a demanda!



A poluição das águas marítimas e fluviais é iminente, bem como do ar, por meio de gases poluentes emitidos principalmente pela indústria e, como no caso brasileiro, por queimadas criminosas, ameaçando a atmosfera terrestre. As poucas florestas que nos restam vão dando lugar a uma ocupação humana desordenada ou à expansão desenfreada de fronteiras agropecuárias. Enfim, um cenário verdadeiramente distópico está sendo construído bem embaixo de nossos narizes!



Será, meu amigo, que isto irá durar para sempre? Será que os nossos netos poderão viver da mesma forma que você hoje? Com certeza não! A hora da mudança é agora. A "geração da mudança" já está sobre a Terra e precisamos fazer uma revolução em nossas mentes e corações. Amar mais, compartilhar, ter compaixão, pensar e cuidar do planeta como se fosse nossa casa, nosso quarto, nossa cama!



Para isto acontecer precisamos reduzir nosso consumo, precisamos distribuir nosso excedente, precisamos repensar nossos atos. Ação e reação. Tudo tem uma conseqüência. O nosso modo de viver também. Cada um tem sua forma de viver e pensar, e o que torna a humanidade tão maravilhosa é esta diferença, é está pluralidade subjetiva. Agora é o momento que precisamos olhar para os povos antigos, aqueles que ainda vivem de um modo sustentável, em harmonia com a natureza, e ter a humildade de aprender um pouco com os mesmos. Pois, apesar dos grandes avanços tecnológicos desenvolvidos pelo homem branco, o know-how então adquirido não está sendo direcionado devidamente para a solução das questões ambientais, por mais evidentes que sejam. É preciso, acima de tudo, um uso responsável e ético da tecnologia, que vise ao bem geral da humanidade e, por conseguinte, do planeta Terra.



A mudança que esperamos não virá de cima, isto é, não será uma iniciativa das autoridades, mas de cada um de nós. Nós somos o sistema; nós somos Brasília, nós somos o Brasil, nós somos a humanidade! Então que seja a hora de darmos este passo juntos para uma nova forma de viver. Vamos ser éticos, amigos terráqueos. Vamos ter cuidado com o planeta, cuidado com as pessoas, distribuir os excedentes, e dar limites ao consumo. Vamos fazer de hoje o 'amanhã' que desejamos para nossos filhos. Vamos brilhar, vamos nos perpetuar, vamos ser e prosseguir!



Muita esperança imprimo nessas palavras e na mudança que as mesmas poderão promover. Não se deixe levar pela força da rotina! Não caia na ociosidade, na alienação e na 'disfunção narcotizante' a que o sistema freqüentemente nos submete! Vamos pensar criticamente, refletir e AGIR!





Um grande abraço de apenas mais um terráqueo preocupado.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Ser humano: poético e prosaico

Disse um dos mais inspirados poetas alemães Friedrich Hölderin (1770-1843):”é poeticamente que o ser humano habita a Terra”. Completou-o mais tarde um pensador francês, Edgar Morin: ”é também prosaicamente que o ser humano habita a Terra”. Poesia e prosa, além de gêneros literários, expressam dois modos distintos de ser.

A poesia supõe a criação que faz com que a pessoa se sinta tomada por uma força maior que ela, que lhe traz conexões inusitadas, iluminações novas, rumos novos.

Sob a força da criação, a pessoa canta, sai da rotina e assume caminhos diferentes. Emerge então o xamã que se esconde dentro de cada um, aquela disposição que nos faz sintonizar com as energias do universo, que capta o pulsar do coração do outro, da natureza e do próprio Deus. Por esta capacidade se desocultam supreendentes sentidos do real.

“Habitar poeticamente a Terra” significa senti-la como algo vivo, evocativo, grandioso e mágico. A Terra são paisagens, cores, odores, imensidão, fascínio e mistério.

Como não se extasiar diante da majestade da floresta amazônica com suas árvores quais mãos ao alto tentando tocar as nuvens, com o emaranhado de seus cipós e trepadeiras, com as nuances sutis de seus verdes, vermelhos e amarelos, com os trinados das aves e a profusão de frutos?

Como não se quedar boquiaberto diante da imensidão das águas que se espraiam mato adentro e descem molemente para o oceano? Como não sentir-se tomado de temor reverencial quando se anda horas e horas pela floresta virgem como me tocou várias vezes com Chico Mendes?

Como não se sentir pequeno, perdido, bichinho insignificante face à incontável biodiversidade?

Habitamos poeticamente o mundo quando sentimos na pele o frescor da manhã, quando padecemos sob a canícula do sol a pino, quando serenamos com o cair esmaecido da tarde, quando nos invade o mistério da escuridão da noite.

Estremecemos, vibramos, nos enternecemos, nos aterramos extasiados diante da Terra em sua inesgotável vitalidade e no encontro com a pessoa amada. Então todos vivemos o modo de ser poético.

Lamentavelmente, são cegos e surdos e vítimas da lobotomia do paradigma positivista moderno aqueles que vêem a Terra simplesmente como laboratório de elementos físico-químicos, como um conglomerado desconexo de coisas justapostas. Não. Ela é viva, Mãe e Pacha Mama.

Mas habitamos também prosaicamente a Terra. A prosa recolhe o cotidiano e o dia-a-dia cinzento, feito de tensões familiares e sociais, com os horários e os deveres profissionais, com discretas alegrias e disfarçadas tristezas.

Mas o prosaico esconde também valores inestimáveis, descobertos depois de longa internação num hospital ou quando regressamos, pressurosos, após penosos meses fora de casa.

Nada mais suave que o desenrolar sereno e doce dos horários e dos afazeres caseiros e profissionais. Temos a sensação de uma navegação tranquila pelo mar da vida.

Poético e prosaico convivem, se complementam e se revezam de tempos em tempos. Temos que zelar pelo poético e pelo prosaico de nossas vidas, pois ambos se complementam e estão ameaçados de banalização.

A cultura de massas desnaturou o poético. O lazer que seria ocasião de ruptura do prosaico foi aprisionado pela cultura do entretenimento que incita ao excesso, ao consumo de álcool, de drogas e de sexo. É um poético domesticado, sem êxtase, um desfrute e sem encantamento.

O prosaico foi transformado em simples luta darwiniana pela sobrevivência, extenuando as pessoas com trabalhos monótomos, sem esperança de gozar de merecido lazer.

E quando chega o lazer, ficam reféns daqueles que já pensaram tudo para elas, organizaram suas viagens e fabricaram-lhes experiência inesquecíveis. E conseguiram. Mas como tudo é artificialmente induzido, o efeito final é um doloroso vazio existencial. E ai tome depressivos.

Saber viver com leveza o prosaico e com entusiasmo o poético é indicativo de uma vida densamente humana.

Por Leonardo Boff.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Reflexões sobre as Árvores

As árvores nascem, crescem, se reproduzem e se transformam. Elas criam beleza e a arte em suas formas é inegável. Têm uma sabedoria acumulada de muitas gerações e as mais criativas maneiras de se adaptarem mostram uma arte única e deslumbrante aos olhos de um observador. São a casa de muitos seres e providenciam, além de abrigo do sol ou da chuva, alimentos fartos para a comunidade da Terra. Atraem diversidade, água, inspiração e conectividade com o misterioso. O que mais posso lhes dizer? O que mais elas precisam nos mostrar? Como podemos ver esses seres vivos evoluidíssimos como simples objetos materiais inferiores? Como uma parte da comunidade da Terra que não possui inteligência? Enquanto nós ditos pensadores fazemos guerras e mergulhamos em poços de futilidades sem fim para viver! Me desculpem os antropocêntricos mas no meu curto caminho de vida percebi que estes seres que chamamos de árvores, têm uma sabedoria anos luz a frente da nossa. Observe, contemple e interaja. Plantemos árvores para criar abundância de sabedoria na Terra, criar vida, criar arte, criar inspiração, criar recursos. Que habilidade maravilhosa que o misterioso nos deu, plantar e favorecer o crescimento de seres iluminados e sábios.

Abundância

O medo acabou, não precisamos mais dele. Sem ele teremos abundância, com abundância teremos amor. Esta aí na sua frente. Quebre as amarras do medo e verá. Saia do paradigma competitivo e vivenciará. Não mais terá barreiras. É simples sim. Não fiquemos encabulados com uma solução simples para problemas tão complexos. É simples sim! E a hora é agora. O fluxo começa a virar de direção e o caldo a engrossar. Velhos, jovens, crianças, mosquitos, macacos e pererecas. Todos um só. A consciência se elevará e viveremos uma vida de verdade, uma vida de luz, de paz, de presença, de espírito, de cooperação. É possível sim! Basta querer! Simples sim. Viva a abundância de espírito na vida.

Vida e Morte

Viver para que
Viver para vê
Vê o que
Vê a vida
O que é vida
A vida é viva
E o que está vivo
Tudo está vivo
E o que está morto
Tudo está morto
Como é estar vivo e morto
Sendo como as árvores
que estão sempre se renovando
com seus galhos, folhas e sementes
E depois sua madeira
na Terra
Se transformando em terra e vida
Muita vida
e a vida gera morte
e a morte
vida
vida e morte
morte e vida

domingo, 30 de agosto de 2009

Poesia aflora no sertão

A Flor do Sertão

O Sertão é verde
O Sertão é frio
Chove sim, cai do céu
Sorriso tem
E confiança também
Povo trabalhador e tranquilo
Sem medo nos olhos
Felicidade Abundante
Simplicidade que vigora
Agora entendo
Como a vida
Mostra muitos jeitos
E o certo
Não há
Cada caminho é um
E o respeito ao caminho do próximo
é um belo começo de caminho
Possibilidades irradiantes encontro
nas flores
do sertão

Borboletas de Marizá

O que é, se faz possível
De todas as formas, e me disse
Em forma de borboleta: Amar
Além do concreto
Além do asfalto
Além do muro erguido
Além da fumaça
Além do mormaço
Além da linha de fogo, troca de tiros
Além do semáforo
Além da faixa de atropelamento
Pare. Atenção. Siga. Na contramão persista
Além do tráfego
Além do tráfico de
Órgão. Corpos. Seres vivos e não-vivos
Além do alçar vôo
De crianças de sete anos
Aeroporto de âncoras enferrujadas, kamikazes
de sonhos
Além dos sorrisos descoloridos
Além dos ternos monocromo-acinzentados
Além dos passos rápidos por falta de motivos
Além das janelas de repartições
Além de birôs de departamentos
Além de varas de jurisdições
Além de protocolos
Além das fixas de cadastros
Preenchimentos de segundas vias
Além de pulos de prédios com quinze andares
Além de jogar-se no trilho do trem
Além do compulsivo esbelto, anfetaminas.
Além, muito além de qualquer
Cerca eletrificada, documento de propriedade
Numero de identidade, registro civil
Além de nós mesmos, dentro de si mesmo
Além do olho-bisturi e ouvidos-ratoeira
Além da boca castradora
Encontrei céu aquarelado
Encontrei azul, nublado
Alaranjado, multicolor
Encontrei flores amarelas
Encontrei vermelho, rosa
Encontrei Mandacaru, Uricuri, Juá
Encontrei o pote
Onde fadas guardam perfumes
Polens reluzentes primaveris
Encontrei o pote dos duendes
E não havia as minhas sandálias
Achei seixos com pinturas de mandalas
Encontrei o pote onde arco-íris
Deságua, borboletas e grilos
Tocam a música que flori o sertão
Encontrei casa de oito lados
Cajueiros aos quais eu era neto
Encontrei ganso ou pato ou marreco ou Geraldo
Encontrei o caminho das pedras
Que rodopiavam até o Ganges
Lugar sagrado onde me encontrei
Encontrei a fogueira da minha inteireza
Onde o cacique alisa meus cabelos
Aquece minha face, afaga meus sonhos
Encontrei cura, sanação pelas mãos
Através das mãos, meditação
Sob estrelas e lua plena
Encontrei pedras altas
Onde o vale encantado se mostrava
Como grande sorriso de amor
Encontrei a bruxa branca
Semeadora do transformar
Encontrei-me novamente, ah... Marizá.

Por Philippe Wollney